Estaduais, sempre eles


 Depois de muita discussão sobre sua real importância, a prioridade ou não que as equipes grandes deram aos jogos (ou mesmo ao campeonato como um todo), cabeças de técnicos rolando adoidado, os torneios de pré-temporada, conhecidos como Campeonatos Estaduais, estão chegando ao fim.

E talvez esse ano tenha servido para o grande público e a imprensa perceberem que, da maneira como são disputados, não dá para continuar.

Muito se pode dizer sobre a importância dos torneios para as equipes pequenas, para a torcida das cidades longe dos grandes centros e a favor da revelação de jogadores.

(Quase) Tudo isso cai por terra ao analisarmos o que aconteceu esse ano, e que tem sido tendência das últimas temporadas. E que é apenas consequência da perda de importância dos campeonatos estaduais ao longo dos últimos 15 anos. Vou dividir o post em 3 partes e explicar separadamente os motivos que me levam a crer que, se quisermos a evolução dos nossos clubes, temos que urgentemente repensar o nosso calendário.

A perda de importância dos Estaduais

É notório que até os anos 50 o campeão estadual era o time mais poderoso da galáxia,numa época em que a dimensão de “galáxia” era, muitas vezes, limitada pela capital do estado, seja ele qual for.

Atlético 9 x 2 Palestra (ex-Yale, depois Ipiranga e Cruzeiro). Num tempo em que a noção de distância não ia muito aquém dos limites da sua cidade. Créditos para o Web Galo (http://webgalo.comze.com/)

Atlético 9 x 2 Palestra (ex-Yale, depois Ipiranga e Cruzeiro). Num tempo em que a noção de distância não ia muito aquém dos limites da sua cidade. Créditos para o Web Galo (http://webgalo.comze.com/)

Costumava dizer que o campeão paulista era o melhor time do Brasil. Geralmente era o clube que saía excursionando na temporada seguinte, fazendo amistosos, inaugurando estádios e alegrando torcidas através de jogos promovidos como verdadeiros acontecimentos sociais.

Com a criação da Taça Brasil começou-se a ter a noção de que clubes de estados menores poderiam competir com os paulistas. E, principalmente, criou-se o conceito de nação, de país, futebolisticamente falando. Numa época em que o rádio era o principal meio de comunicação, as fronteiras mentais dos brasileiros começaram a se expandir.

Os títulos do Santos na recém criada Libertadores pareciam que significariam uma internacionalização do futebol brasileiro, além da seleção. Ledo engano, uma vez que o Santos se recusou a participar do torneio, deficitário à época, para se concentrar no Paulista e principalmente nos rentáveis amistosos contra clubes brasileiros e estrangeiros.

E nos voltamos para nosso próprio umbigo de novo. Ou alguém ousa dizer que antes de 1992 os nossos clubes davam tanta importância a Libertadores? Apenas 3 títulos nesse período pós Santos e pré São Paulo provam que era aqui dentro que nossos grandes concentravam suas forças.

Nessa época inclusive, temos muitos casos de times valorizando o estadual ao invés do Brasileiro. E isso também não seria nenhuma aberração durante os anos 90. A bagunça do nosso calendário, que fazia com que os estaduais muitas vezes durassem o ano todo, competindo com o Brasileiro inchado e que também se estendia até o fim do ano ou até o ano seguinte, faziam com que os clubes tivessem que priorizar ou um ou outro.

O começo do fim foi dado quando passou-se a disputar o Brasileirão somente no segundo semestre. Com o primeiro semestre mais livre, a Copa do Brasil ganhou importância. A Libertadores idem. E os estaduais ficaram meio perdidos. Ainda mais enquanto houve o revival dos torneios regionais, como o Rio-São Paulo.

Desde, aproximadamente, 2000, começamos a ver campeonatos estaduais perdendo o interesse dos torcedores, dos próprios clubes e até mesmo dos jogadores, em detrimento a torneios financeiramente mais rentáveis.

E o advento da internet e da facilitação e difusão dos meios de comunicação em massa trazendo informações quase que instantâneas causou outro fenômeno: as fronteiras mentais de todos se expandiram. Agora estamos a um clique de saber como anda o campeonato Russo, Holandês ou Japonês.

E quando acontece essa expansão no consciente passamos a desvalorizar aquilo que aparentemente não deve ser tão emocionante/rentável/agradável.

Qual o grande interesse em assistir a um jogo contra o Boa Esporte? Qual a qualidade técnica dessa partida? É compatível com o preço que pagarei para ir ao estádio?

Passa-se a atenção aos torneios que nos aparentam ser mais importantes. Vencer uma Copa do Brasil ou mesmo uma Copa do Nordeste está bem acima de ser campeão estadual.

Aí a torcida passa a não comparecer. E os jogadores começam a tirar o pé. E a diretoria passa a pedir pra escalar o time B, C, Júnior…..

Estão matando os clubes pequenos. E estrangulando os grandes.

A visão dos pequenos

Essa história de que é a salvação dos pequenos jogar contra os grandes é ilusão. Tem lá a sua razão quando se pensa em retorno financeiro por uma partida. Mas isso quando o pequeno dá a sorte de jogar em casa o confronto contra o grande. Ou, no caso de alguns torneios, SE ele vai jogar em casa alguma partida.

O fator “sucesso” de um clube pequeno está muito mais ligado a força econômica da cidade/região onde está do que ao campeonato estadual ou a quantidade de grandes que ele enfrenta.

 Um simples argumento, a quantidade de pequenos que levantaram os estaduais:

 – considere os 4 estaduais mais “fortes”: SP, RJ, RS e MG.

– em SP o último pequeno campeão foi o São Caetano em 2004. No RJ foi o Bangu em 1966. Em MG o Ipatinga em 2005. E no RS o Caxias em 2000.

Ou seja, mesmo não usando suas principais forças, é raríssimo um clube pequeno vencer um estadual. O que significa que não adianta jogar 4 jogos contra Flamengo, Fluminense, Vasco e Botafogo. O máximo que vai conseguir é uma renda extra, que servirá para pagar os salários dos atletas que disputaram aquele campeonato.

A falta de continuidade da maioria dos clubes acaba matando os pequenos. Muitos só “existem” durante os estaduais. Muitos fazem acordos com empresários para disputar as famigeradas e deficitárias “Copas estaduais”.

Sem público, sem publicidade, o que se vê são clubes que se tornaram espectros. São sazonais, servindo de vitrine para empresários venderem jogadores a clubes médios e clubes estrangeiros de mercados alternativos.

A maioria dos pequenos paga para entrar em campo. As cotas de TV são desumanamente divididas, com os tais grandes levando milhões enquanto clubes menores levam 500, 400 mil para participar de um estadual. Os públicos são ínfimos até mesmo contra muitos dos grandes.

Esses pequenos tem que arcar com salários, despesas de manutenção de estádios, aluguel dos mesmos, despesas de viagens e etc.

É aí que vemos porque os clubes menores de São Paulo costumam experimentar mais sucesso que os pequenos de outros estados. O poder econômico das cidades médias paulistas costuma ultrapassar o de muitas capitais espalhadas pelo Brasil. É mais fácil conseguir patrocínios. Até mesmo as prefeituras dessas cidades costumam, por vezes, financiar esses times. Afinal, um clube disputando uma Série B ou mesmo uma Série A gera retorno para a cidade. Vide Ipatinga, exemplo de clube que enquanto foi financiado pela prefeitura experimentou relativo sucesso. Hoje, abandonado pela mesma, teve que buscar refúgio em Betim, outra cidade economicamente muito forte.

Mas mesmo assim não há continuidade. Veja os casos de Santo André e Paulista, campeões da Copa do Brasil em anos consecutivos. O Paulista jamais conseguiu o acesso a Série A, mesmo com um time aceitável. O Santo André conseguiu mas falhou no Paulista.

Raros são os clubes do Sul/Sudeste que atraem públicos consideráveis. Essa relação é mais íntima no Norte/Nordeste, lugares em que a falta de bons espetáculos futebolísticos aproximam os torcedores de clubes de suas cidades.

Raros são os clubes do Sul/Sudeste que atraem públicos consideráveis. Essa relação é mais íntima no Norte/Nordeste, lugares em que a falta de bons espetáculos futebolísticos aproximam os torcedores de clubes de suas cidades.

Chegamos ao ponto de termos pequenos na Série A e na Segunda Divisão estadual. Como a rebaixada Portuguesa ano passado ou mesmo o Ipatinga. É uma questão de prioridade. É possível arcar com uma queda estadual tendo em vista uma boa participação na Copa do Brasil ou uma promoção para a Série A.

A visão dos grandes

 O retorno em termos de patrocínio é pequeno. A verba de TV não passa perto das distribuídas nos campeonatos nacionais. O público não tem grande interesse em ir aos jogos.

Essa tríade gera um dilema para os grandes. A maioria dos dirigentes, com rabo preso com presidentes de federações, tem que por times em campo para jogar torneios deficitários, com risco de lesionar jogadores, perder dinheiro e em detrimento de uma pré temporada (que não existe).

E mais: o congestionamento de datas faz com que nossos clubes não consigam mais jogar torneios ou amistosos fora do país.

Estádios vazios, clubes com prejuízos. Há que se pensar urgentemente numa saída para um melhor aproveitamento do calendário.

Estádios vazios, clubes com prejuízos. Há que se pensar urgentemente numa saída para um melhor aproveitamento do calendário.

Fora o fato de que se o grande não vai bem logo o treinador é demitido. E nem precisa estar indo mal, pode ser simplesmente a derrota em um clássico o motivo para uma demissão. Aí tem que começar um novo planejamento, contratar novos jogadores, iniciar todo um trabalho que poderia já estar avançado.

O racha entre clubes e federações já começa a ter efeito. No Paraná os dirigentes do Atlético claramente desafiaram a federação ao estabelecer que o time principal só estrearia em abril na Copa do Brasil. O clube do Paraná fez pré temporada até a ultima quarta feira.

E é por lá que as conversas de uma nova edição da Sul Minas ganham força. E assim como no Nordeste, é provável que os clubes optem por não disputar os estaduais enquanto estiverem disputando o torneio regional.

É uma questão de exposição na mídia, de retorno de patrocínios, de aumento de público. Futebol é um negócio.

De que vale abater um Belo Jardim da vida e perder um clássico contra o Santa Cruz? Não é rentável ter 540 pagantes num jogo do Vasco em São Januário, com uma renda de 10 mil reais que não paga nem a despesa dos refletores.

Os grandes não se fortalecem enfrentando clubes pequenos. Muito menos os pequenos crescem. Não é uma relação “quanto mais jogos contra grandes, maior eu me tornarei”. Ainda mais se esse grande estiver com a cabeça numa Libertadores.

O futuro: a volta dos regionais?

Sempre fui defensor da extinção dos estaduais para dar mais espaço a pré-temporada. A Copa do Brasil alongada, dando chance aos times da Libertadores participarem do torneio foi uma boa medida.

Na minha concepção os estaduais se tornariam apenas mais um nível da nossa pirâmide do futebol. É algo simples, adotado no mundo todo. Teríamos nossas 2 divisões nacionais como hoje, a Série C como existe, talvez apenas com mais clubes, uma quarta divisão bem regional mesmo, também estendida. E então chegaríamos ao quinto nível, em que os clubes jogariam apenas contra clubes de seu mesmo estado.

E poderíamos ter as divisões inferiores dos respectivos estaduais como um sexto, sétimo nível. E claro, nem todos os estados teriam esses níveis da pirâmide.

Sampaio Correa campeão da Série D. E atraindo muito mais torcedores que clubes tradicionais e ditos de massa. O excesso de jogos tornou o futebol algo comum.

Sampaio Correa campeão da Série D. E atraindo muito mais torcedores que clubes tradicionais e ditos de massa. O excesso de jogos tornou o futebol algo comum em determinadas regiões. Em outras a carência de jogos é grande.

A relação é simples: para reduzir custos e dar a chance a um clube de sair da sétima divisão e aos poucos subir, é mais fácil fazê-lo jogar todo o ano, contra clubes de igual tamanho, do que jogar um torneio de 3 meses e ficar inativo boa parte do ano.

Essa inatividade inviabiliza que muitos clubes participem dos próprios estaduais. Houve uma redução brusca no número de clubes ativos no Brasil, com grande aumento de clubes em “stand-by”.

Mas acho que essa solução nunca será adotada. É difícil imaginar a federação mineira se abstendo de ter Atlético e Cruzeiro nos campeonatos por ela organizados, por exemplo.

Uma medida que provavelmente vai ser tomada dentro de uma ou duas temporadas é a volta dos regionais. Esse ano já tivemos a Copa do Nordeste. Provavelmente ano que vem teremos a volta do Sul Minas.

Financeiramente é mais interessante pela abrangência do torneio. O público também poderia se interessar mais por ter mais jogos competitivos, entre grandes clubes.

Mas eu torço o nariz. Por exemplo, juntando Grêmio e Inter, Atlético e Coritiba, Atlético e Cruzeiro, temos apenas 6 grandes num torneio que teria que incluir, no mínimo, 14 ou 16 participantes. Aí entra o fator política, que muitas vezes qualifica clubes inexpressivos para esses torneios.

Um dos cabeças da volta do Sul-Minas, por exemplo, é o J.Malucelli, clube de Joel Malucelli, empresário paranaense.

Fora o fato de que, obviamente, assim como na Copa do Nordeste desse ano, os clubes grandes continuam disputando os estaduais. Ou seja, o congestionamento de datas continua e a pré-temporada continua não existindo.

Não é possível conciliar estaduais e regionais num mesmo calendário mais. Ainda mais com a Copa do Brasil alongada e o Brasileirão começando em maio/junho.

As cenas dos próximos capítulos nós iremos acompanhar em breve.

Mas o que esperar de uma Confederação em que um paspalho como o Marin é presidente da Confederação de Futebol?

Para ir além:

http://globoesporte.globo.com/platb/torcedor-botafogo/2013/01/18/a-formula-do-fracasso/

http://globoesporte.globo.com/platb/olharcronicoesportivo/2013/02/25/o-calendario-e-a-morte-dos-clubes-pequenos/

2 thoughts on “Estaduais, sempre eles

  1. Concordo que o ideal seria que os clubes pequenos pudessem ter um calendário anual e manter a equipe em atividade por 12 meses. Mas não acho que essa Copa do Brasil com 2086 clubes seja a solução. E duvido que façam as séries E, F, G, H… Então não tem jeito.
    Sem falar que, os mesmos critérios técnicos que usam pra criticar os estaduais deveriam valer pra Copa Inchada do Brasil Varonil. Pegar, por exemplo, um time do Amapá e botar pra enfrentar um Inter da vida é dose pra javali. Muito pior que o Inter ficar jogando contra os Cerâmicas da vida.

  2. Regionalizar ao máximo os campeonatos nacionais menores seria bom; extender o calendários dos clubes menores, fazendo com que os grandes entrem apenas na fase final dos estaduais seria uma boa também. Poderiam fazer uma fase prévia do Paulista, por exemplo, fazendo com que os grandes entrem lá por abril ou maio. Só que eu concordo com o que vocês disseram, dificilmente as federações abrirão mão de matar suas galinhas dos ovos (nem tão) de ouro, e acho complicado a CBF ter interesse em fazer algo além da série D.

    Só penso que a Globo muito provavelmente deve intervir nessa fórmula do Paulistão, o suplício está grande com 19 rodadas arrastadas; ali acho (palpite, sem informação) que vão fazer algo semelhante ao RJ, com mais clássicos e jogos decisivos; no restante do país, a coisa não deve andar muito, apenas realmente com a volta dos regionais, que são interessantes, mas também têm jogos para ninguém, além de serem meio estranhos (Sul-Minas? Não seria melhor fazer logo uma Copa Sudeste?)

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