Mude; Ou será mudada


Hoje o tema é finanças no futebol. E lá no fim tem um pequeno adendo sobre a F1 e a eterna polêmica do Dick – Schumacher – Vigarista.

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A matéria está aqui: uma reportagem da BBC, que, aliás, é o melhor site para conseguir informações sérias sobre esportes fora do Brasil.

Basicamente é uma ação do governo inglês, através do Ministério Público de lá, para “regular” a FA, a CBF inglesa.

O objetivo é reduzir os gastos dos clubes e o consequente endividamento e também mudar a FA estruturalmente.

Segundo a matéria o governo não tinha intenção de alterar ou intervir no futebol do país, mas caso até o prazo dado (29/02)  a FA não implemente as mudanças e regras pedidas pelo Ministério, o governo se verá obrigado a regular o futebol.

Como eu não sei, não é explicado na matéria. Há que se lembrar que a FIFA coibe e pune qualquer tipo de interferência governamental nas federações.

A raiz da questão é: a gastança dos clubes está chegando a um nível em que as dívidas estão se tornando impagáveis. Há uma preocupação com o futuro dos clubes. Diga-se de passagem, com o futuro de TODOS os clubes ingleses.

A própria matéria traz números que ilustram o porque da preocupação do governo: as dívidas coletivas dos 92 clubes profissionais estão em 3,5 bilhões de libras.  A maior parte desse montante é dividida pelos “gigantes” Liverpool, ManUtd, Arsenal, Chelsea e Man.City. Chelsea e ManUtd tem dívidas que chegam perto da casa dos bilhões.

Os clubes são autorizados a continuar trabalhando com essas dívidas, assim como aqui. O que não pode é dar calote no “leão” da terra da rainha, a HMRC (Her Majesty’s Revenues and Customs).

Nos últimos anos pelo menos uma dúzia de clubes ingleses estiveram perto de serem liquidados pela HMRC. Talvez sendo até complacente demais, a HMRC prorrogou vários prazos e deu uma sobrevida a vários clubes.  E se você acha que são peixes pequenos, times da quarta divisão, se engana. Nos últimos 3 anos a HMRC começou a cobrar clubes de maior expressão e de maior poder econômico.

O Cardiff City, que disputou os playoffs da segunda divisão e esteve a uma vitória de subir pra Premier League nos últimos dois anos, esteve a beira de extinção nesse meio de ano. Foi salvo no soar do gongo. O mesmo aconteceu com o Portsmouth, que disputou por vários anos a Premier e foi campeão da Copa da Inglaterra recentemente. Suas dívidas são praticamente impagáveis e o clube sofre hoje na parte de baixo da Segunda Divisão. Também quase foi extinto há uma temporada.

Destino mais fatídico teve o Chester City. O clube falhou na tentativa de conseguir investidores dispostos a pagar uma assombrosa dívida de 26.000 libras e foi extinto pela HMRC.

Acompanho o site da BBC há um tempo já. O suficiente para ler inúmeras notícias de clubes pequenos sendo intimados a pagar dívidas como a do Chester City. Para um clube pequeno uma dívida de 20.000 libras é algo de outro mundo. Há inúmeros clubes na mesma situação. E é esse tipo de situação que o MP inglês quer evitar.

E a intenção é evitar que continue com uma “escalada” da HMRC, que começa a incomodar os clubes da Segunda Divisão e até mesmo da Premier League.

A intenção é ter uma regulação mais forte para evitar gastos excessivos. Por parte de todos, seja o Liverpool, seja o Oldham. Algo como uma gestão sustentável. E evitar excessos como o pagamento de salários como o de Aguero. Como disse, a preocupação é com o depois, não com o agora.

Também querem uma mudança na estrutura da FA, que segundo eles, não funciona. Querem mais representantes ligados ao futebol e uma divisão maior. Hoje é basicamente o presidente, vice, secretário e 5 presidentes de “Federações estaduais”.  É essa mudança que não muito bem explicada e que carece de mais atenção, porque pode ser entendido como interferência governamental.

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Outro ponto que me chamou a atenção foi um pedido do Liverpool para negociar os direitos de TV para o exterior em separado, não em conjunto.

Algo que vai totalmente contra a vontade da maioria dos clubes. Mas é algo que serve como indicativo para apontar que mesmo o futebol inglês, tão certinho e copiado mundo afora, tem as suas picuinhas.

A questão e simples: Liverpool, Arsenal e Man.Untd, junto com o Chelsea, se tornaram marcas globais. Os três primeiros sempre foram. Liverpool e Manchester United tem duas das maiores torcidas da Ásia, por exemplo, e tem lá receitas enormes com vendas de camisas e outros produtos.

Quando é negociado os contratos de TV para o exterior é tudo negociado em bloco. É o campeonato Inglês que é vendido e o dinheiro igualmente dividido entre os 20 participantes. O Liverpool quer ter mais uma fatia do bolo. Porque, afinal, não se pode comparar o interesse em um jogo do Liverpool com o interesse em um jogo do Wigan.

Para conseguir aprovar uma fatia maior para os “grandes”, é preciso a aprovação de 14 dos 20 clubes, algo portanto, impossível.

Mas serve pra mostrar a insatisfação dos grandes com o modelo atual. E dos pequenos também! Afinal o contra-argumento utilizado é justamente que esses grandes clubes já tem receitas demais por serem marcas globais. Quem deveria ter mais receitas são os pequenos, que não são capazes de vender sua imagem fora de suas cidades.

Outra preocupação crescente por lá é justamente esse buraco que está aumentando cada vez mais, dos gigantes para os pequenos e dos clubes da Premier League para os clubes da Segunda Divisão.

A diferença é gigantesca entre o que é pago para participar da Premier League e o que é pago para quem participa da Segunda Divisão. O que causa o surgimento de clubes ioiô, como o West Bromwich. Ou então faz com que clubes como o Leeds, Southampton, Sheffield United e Charlton gastem demais na Premier League e quando caem não consigam manter seus compromissos e vão descendo a ladeira. Os quatro que citei disputaram mais de uma vez a Premier League na última década e foram parar na Terceirona.

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Tudo isso só serve para ilustrar que esses problemas com direitos de TV, dívidas, fatias do bolo, acontecem no mundo todo. Na Itália é a mesma ladainha. Na Espanha então. Por aqui vale o mesmo.

Não é por acaso que clubes como Santa Cruz, Paysandu, Criciúma e Juventude foram ladeira abaixo. Uma vez na Série A, você precisa contratar e pagar mais. Caindo você não consegue honrar com os compromissos. E o pior acontece quando o clube não sobe imediatamente e tem sua fatia cortada pela metade no segundo ano na Série B. Foi o que ajudou a derrubar o Santa e o Paysandu. Claro que tudo isso aliado a péssimas gestões.

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Mas é algo a se pensar. Queremos ter um campeonato de 4 times? Porque estamos nos encaminhando para isso.

Clubes como o Paysandu e o Remo, Santa Cruz e Fortaleza, tem apelo grande nos seus estados. Tem torcidas que comparecem aos estádios. Mas não tem mídia aqui “embaixo” e portanto não tem dinheiro.

Vão se afundando e sumindo.

E pra não dizer que é exclusividade nossa, tomem por exemplo o Bradford City. Clube que disputou a Premier League em 1999 e 2000. E que desde então foi descendo a ladeira.

Hoje está na Quarta Divisão. É o único time que disputou a Premier League a estar tão baixo. E há duas temporadas que vive no ostracismo do meio da tabela. Não está sendo diferente agora.

Time de Quarta, torcida de Primeira

O que o Bradford tem de diferente? Talvez nada.

Talvez o fato de ter tido uma média de público de 11.000 torcedores na última temporada, quando terminou em 18º. Na teoria o Bradford foi o 86º clube inglês na pirâmide. E com uma média de público de Série A do futebol Brasileiro.

Vítima de más administrações e também do sistema, o Bradford hoje é um clube grande perdido no ostracismo da Quarta Divisão.

Troque o nome Bradford por qualquer um dos que citei acima. Talvez o problema não seja o país ou as pessoas. Talvez seja o sistema.

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O Dick Vigarista

Sem me alongar muito, o Marco lembrou esse apelido do Schumacher e o Alexandre respondeu, dizendo que a imagem do heptacampeão é muito suja aqui.

A F1 é suja, há que se dizer.

Mas o Schumacher tem um histórico um pouquinho sujo demais: no seu primeiro título ele foi acusado de várias vezes utilizar-se de ajudas eletrônicas para melhorar seu desempenho. Nesse vídeo, em inglês, estão explicadas as três situações e suas implicações.

E claro, o acidente que tirou ele e Damon Hill da corrida e deu o campeonato ao alemão. Tire suas conclusões. Pela FIA ele foi inocentado.

O mais grave incidente ocorreu em 1997. Por esse ele foi desclassificado do campeonato.

Some inúmeras polêmicas menores ao histórico do alemão. Inúmeras. Gastaria um espaço maior aqui descrevendo-as que falando sobre as finanças no futebol.

O resultado é simples: o piloto mais punido da história da F1. Mais um recorde pra ele.😉

Sobre o caso Senna/Prost, vale o mesmo. Prost jogou o carro em Senna. E Senna em Prost. Não há santos na F1.

Em minha opinião é diferente quando você faz algo uma vez, como fizeram Prost e Senna e quando você faz isso corriqueiramente, como é/era o caso de Schumacher.

E só uma correção Alexandre, foi Prost quem vetou Senna na Williams em 1993. Exigência de contrato.

Ele havia se aposentado em 1991 e retornou em 1993. Apenas para ser campeão.A Williams tinha o melhor carro disparado e Prost queria ser tetra campeão. Sabia que se Senna fosse para a Williams naquele ano ele fatalmente seria campeão.

Senna esperou e Prost foi campeão, tetra campeão. Deixou Senna apenas como tri e “ganhou” a batalha contra o brasileiro.

Em 1994 o carro da Williams já havia sido ultrapassado pela Benneton, que usava componentes eletrônicos avançados para aquele ano; alguns até ilegais, como pode ser visto no primeiro vídeo.

Prost já estava aposentado. Senna já tinha 34 anos. E a Tamburello foi fatal para ele.

4 thoughts on “Mude; Ou será mudada

  1. Uma das melhores coisas do futebol brasileiro é essa “igualdade” entre quase 10 clubes. Basta olhar a tabela de hoje. Qual campeonato do planeta tem algo parecido??? Não sei dizer. E isso é algo que falta nos principais campeonatos europeus. Lá são 2 , 3 ou 4 disputando e o resto faz figuração. E isso com todo o dinheiro e contratações que podem fazer.
    Por isso defendo que haja uma divisão melhor do bolo $. Não é por pura caridade, é pelo bem de TODOS. Inclusive dos grandes. Por isso, sem exageros, acho bom ter regras e um controle financeiro. E isso não é assunto da FIFA. Ela que vá cuidar de suas coisas e negociatas. Deixa as federações e ligas resolverem sua vida. De acordo com a realidade de cada país.
    Nesse ponto acho que a NBA, apesar da crise atual, ainda dá aula pro futebol.

    Sobre o Schumi, aviso que vi praticamente toda a carreira dele na F1. Acompanho a brincadeira desde meus 7 ou 8 anos. Peguei até a era Senna X Prost. Posso garantir que o Dick Vigarista fez muitas coisas erradas na pista. Essa com o Damon Hill é um belo exemplo. Mas ele também aprontou nos bastidores. Sempre, obviamente, puxando a brasa pra sua sardinha. Claro que seria campeão sem tais armas, mas talvez só com 5 títulos, sei lá… Agora, se ele fez tais coisas é porque alguém deixou. Ou foi omisso.
    Mas, basicamente, não há santo nesse meio. Talvez em nenhum outro😉

  2. Também acho que a melhor divisão entre os clubes dos recursos das Ligas seira o ideal para a manutenção de um equilíbrio em um campeonato. Claro que não se deve fazer benemerência com os clubes incompetentes, mas a divisão mais igualitária ajudaria um pouco a fomentar um equilibrio; no caso do Brasil isso foi solenemente ignorado na renovação dos direitos de TV.

    Sobre F-1: Realmente cometi um equivoco na questão do veto, traído por minhas memórias da infância: tinha certeza que era o contrário que havia ocorrido (Senna vetando Prost para ir para a Willians, que tinha o melhor carro na época) e por isso o francês teria parado ao ser campeão em 1993. Mas na verdade apenas errei o atingido pelo veto “senístico”:
    http://blogdoribeiro.blogspot.com/2009/02/um-veto-e-suas-consequencias.html

    Sobre o Schumacher: Aproveito essa frase do Marco (“Mas, basicamente, não há santo nesse meio”) e esse texto aqui: http://tasarantes.wordpress.com/2011/06/16/cacadores-de-mitos-o-gp-do-japao-de-1991/#comments, para explicar o que eu quis dizer: não acho o Schumacher um candidado a santo, apenas quis observar a forma maniqueista que muitas vezes é tratado o assunto F1 aqui no Brasil ( não foi o caso de vocês, só acho que número de punições é algo um pouco subjetivo porque antigamente não acontecia esse procedimento de punição tão intenso como acontece hj). Senna é quase um santo e Schumacher (muito por ter conquistado mais títulos, vitórias, etc…) é quase um dêmonio; isso só mudou um pouco quando ele veio aqui e jogou futebol para o Criança Esperança. Não gosto muito dessa exaltação exagerada que acontece em relação à figura do Senna, que era um grande piloto, mas não era perfeito (como ninguém é).

    Sobre aquele argumento que muitos falam (na época do Schumacher era mais fácil a competição), ok, tem um fundo de verdade, mas o fato é que ele foi dominante de uma forma que nunca ocorreu antes.

  3. Só para deixar claro: Quando quis dizer Senna vetando Prost, quis dizer o seguinte> pensava que o brasileiro teria imposto> ou esse francês vai embora, ou então eu não assino com vocês (da Willians).

    Aliás, outra coisa interessante: Senna nunca quis correr em um carro “meia boca”, inclusive esse foi um dos motivos dele nunca correr pela Ferrari que na época andava mal das pernas; só queria correr no melhor carro, por isso foi para a Willians (o que era até justo pela qualidade que tinha, mas o que o Schumacher fez, ajudando a reconstruir a Ferrari, junto com Brawn, Byrne, etc. é algo digno de nota). .

    É evidente que os erros de Schumacher existiram, principalmente na pista e na maioria não discuto, principalmente esse do Vileneuve; sobre esse do carro em 94 acho complicado colocar na conta dele, acho mais coisa da equipe.

  4. Mais algumas considerações sobre Schumacher/Senna/F1:

    Sobre o veto de Senna ao Warwick, já foi dito tudo. Mas se Warwick diz que Senna arruinou sua carreira, está sendo
    muito duro consigo mesmo. Porque se ele fosse tão grande piloto assim, teria arrumado outro emprego em outra equipe e sua chance em um grande time apareceria. Talvez ele tenha sido apenas mais um “superestimado inglês”, assim como acontece demais no futebol (Beckham,Owen,Lampard,Gerrard).

    Também acho que o Alemão 1º venceria seus campeonatos mesmo tendo melhores concorrentes. Não seriam 7, mas seriam uns 4 ou 5. O que já é muito!
    Pra demonstrar a dominânicia do Alemão 1º, coloco o seguinte: se o carro da Ferrari era tão superior assim, pq diabos o Barrichello tinha que lutar ano após ano pelo vice campeonato? Dentro do cockpít o alemão tinha uma técnica incrível, um estilo de guiar limpo e eficiente. Foi um gênio em seu auge. E com um dos carros mais dominantes da história da F1 na mão! Só podia dar o que deu.

    Eu sou muito novo pra me lembrar de Senna ou Prost. Quando Senna foi campeão pela primeira vez eu ainda esperava minha vez pra vir pra esse mundo. Já ouvi muita gente dizendo que Piquet foi melhor que Senna. Mas tudo isso é muito subjetivo. É claro que a morte de Senna fez o piloto ser mitificado. É fato também que ele só foi campeão com o melhor carro da F1. Mas assim o foi Schumacher. E assim foi Prost. E assim foram vários outros.

    Vou escrever algo sobre a F1, os carros dominantes e os companheiros de equipe.

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