Era uma vez…


Era uma vez, em um país muito distante, nebuloso e frio, um grande clube de futebol. Depois de ter grande sucesso e se tornar um dos maiores de seu país, esse clube foi aos poucos declinando.

O declíni0 incluiu uma passagem pela segunda divisão. Uma queda tenebrosa, selada com uma derrota dentro de casa para o maior rival local. E com um dos seus maiores ídolos marcando o gol que rebaixou a equipe.

Após um título de Liga dos Campeões no fim da década de 1960, nosso grande clube viu su maior rival ressurgir com força do nada. Saindo da segunda divisão e vencendo praticamente todos os torneios possíveis em um período de 20 anos, se tornaram os maiores do país. E deixaram nosso grande clube na saudade.

Um título de Copa aqui, outro ali, , foram as únicas coisas boas que nosso grande clube venceu. Mas nada que agradasse a torcida, por que ali pertinho, na cidade vizinha, o maior rival vencia, as vezes em uma mesma temporada, o nacional, a Copa e o torceio continental. E nosso grande clube ficava chupando dedo e relembrando como os dias costumavam ser melhores.

Foi por essas temporadas ruins e para tirar o nosso grande clube do ostracismo que a diretoria apontou um treinador promissor em 1986. Esse treinador promissor tinha provado seu valor em um campeonato inferior, mas tinha o desafio de dirigir um clube daquele tamanho pela primeira vez. Se o time dentro de campo era ruim, a história e a grandeza da equipe pesavam toneladas.

Na primeira temporada o nosso treinador de nosso grande clube não foi muito bem. 11º, mas pelo menos livrou a equipe do rebaixamento, posição que ocupava quando assumiu.

A segunda temporada foi excelente. Terminaram em segundo. Nosso grande clube reviveu os tempos em que ficava na parte de cima da tabela. Mas a diferença abissal entre nosso grande clube e seu grande rival foi de 9 pontos. Nosso grande clube não chegou a incomodar, pra ser bem sincero. A torcida queria o título, nada menos.

A pressão aumentou, claro. Após o vice campeonato, o próximo passo é o título, certo? Errado. Nosso grande clube falhou miseravelmente na temporada seguinte. Terminou em 11º.

Pra piorar, se é que é possível, o início da temporada seguinte foi horrível. Tudo bem, venceram o primeiro jogo, mas depois engrenaram uma série terrível. Que culminou, após uma humilhante goleada para seu maior rival local, em pedidos de demissão do treinador. Os dizeres eram simples:

Three years of excuses and it’s still crap

Mas o treinador tinha o aval da diretoria. Eles confiavam em seu trabalho. Apesar da péssima colocação final, 13º, o clube venceu seu primeiro título com o nosso treinador. Foi a Copa, título que muitos dizem que salvou o cargo do nosso treinador.

Para a temporada seguinte, com mais expectativas, claro, um título sempre traz expectativas de melhoras, nosso treinador conseguiu levar a equipe a um título continental pela primeira vez. Tudo bem que aquele torneio nem existe mais, mas título é título. Apesar disso a posição final de nosso grande clube,6º, não agradou em nada. Era um time capaz de golear e ser goleado com a mesma facilidade.

Na temporada seguinte nosso grande clube, talvez agora numa posição muito mais desconfortável, já que pelo menos antes nem lutava pelos títulos, falhou novamente. O título da Copinha, já que são duas nesse nosso país, não era muita coisa. Nosso grande clube foi vice, mas o campeonato foi vencido por outro rival que também estava no limbo há muito tempo, muito mais que nosso grande clube, serviu para reaquecer as dúvidas sobre a capacidade de nosso treinador em vencer o campeonato.

Mas é nesses momentos que um grande treinador prova seu valor. E o nosso treinador provou o seu. Depois de começar a temporada muito mal, contratou um ídolo do rival, o que tinha ganho o campeonato anterior. E deu certo. Com uma campanha espetacular, o nosso grande clube venceu o campeonato após 26 anos.

E o nosso treinador venceu seu primeiro campeonato no nosso grande clube após 6 anos.

Bancado pela diretoria e por si mesmo, em sua convicção que era o homem certo para levar aquele time de volta aos seus tempos de glória, nosso treinador entrou naquele ano para a lista dos grandes treinadores do nosso grande clube.

E garantiu seu emprego por mais uma temporada.

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Não preciso dizer de quem estou falando, não é segredo pra ninguém.

Alex Ferguson demorou 6 temporadas para conquistar o campeonato Inglês, objetivo da diretoria quando o contratou.

Mas Ferguson achou um time acabado, sem auto estima, sem disciplina, sem ambição. Achou um clube antigo e quebrado, com uma enorme torcida e um grande complexo de inferioridade, devido ao sucesso estratosférico do Liverpool nos anos 70 e 80.

Mas Ferguson “se segurou”. A torcida e a mídia pediram sua demissão. Muitas vezes. Mas ele acreditou no seu trabalho. Seria muito simples pedir o boné e retornar para a Escócia, com a bagagem de ter sido treinador do Manchester United. Mas ele sabia onde podia chegar.

E a diretoria bancou-o também. Não jogou para a torcida. Não acreditou que seria válido demitir o treinador que tinham depositado a confiança e dado as garantias que fariam o necessário para levar o Manchester ao topo novamente.

É muito cômodo demitir o treinador após 3 derrotas seguidas, se esquecendo de todo o trabalho que ele estava fazendo. Muito cômodo atender ao pedido da torcida e depois chegar para a imprensa e dizer: “fiz o que todos queriam e achavam certo”. É muito cômodo ficar apagando incêncios aqui e ali, se esquecendo dos reais motivos de um clube não conseguir vencer nada.

Na maioria das vezes o problema é muito, muito maior.

Dá certo sempre? Depende. A primeira pergunta que se deve fazer é: qual meu objetivo. Se sou presidente do Atlético-GO e contrato alguém com a expectativa de ser campeão brasileiro, quem deve ser demitido? É preciso primeiro uma auto avaliação.

Deu certo para o Manchester. Muito certo. Já são 12 títulos ingleses, 2 Ligas dos Campeões e inúmeras Copas e Supercopas. Hoje é, sem dúvida, um dos maiores clubes do mundo.

One thought on “Era uma vez…

  1. Ótimo texto sobre o Manchester, com interessantes lembranças históricas. Acho o Ferguson admirável, um cara que realmente construiu um trabalho; só é preciso lembrar que, até na Inglaterra, esse conceito de manter treinador está acabando; com exceção do Ferguson, do Wenger no Arsenal que está há 15 anos (mas se tiver outra temporada igual à essa última vai acabar caindo fora) e o Moyes no Everton há 10 anos, não temos nenhum técnico há mais de duas temporadas no comando dos times. Isos muito por causa da mudança de donos nos clubes, que hoje pertencem em sua maioria a milionários do Catar, Emirados Arabes, Estados Unidos, que nem sabem o que é uma bola na maioria dos casos.

    Penso que se um clube brasileiro por exemplo, adotar essa filosofia, serei favorável e penso que é um caminho ideal, pena que seja meio utópico por aqui.

    Só pra esclarecer, sou Liverpool! hehe…mas admiro o Ferguson pra caramba….e esse carrosel sulamericano que os ingleses estão adotando tem muito haver com esses bilionários mesmo…mas isso é pra outro post…😀

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