Crônica de um título anunciado


A minha impressão hoje, ao assistir Barcelona e Manchester United pela final da Liga dos Campeões foi clara e simples: estamos vendo a história ser escrita.

Não me levo por comentários de ex-jogadores ou narradores empolgados. Muito menos comentários de torcedores de ocasião. O que tenho a dizer é baseado na minha personalidade extremamente crítica. Tão crítica a ponto de, apesar de ter uma simpatia pela equipe catalã, torcer contra apenas para que seus defeitos sejam escancarados. Fiz isso ano passado. Não pude fazer isso esse ano.

Quando uma equipe desponta dominante no cenário esportivo (não apenas no futebol), a crítica especializada e mesmo os torcedores costumam criar rótulos que muitas vezes são mentirosos e enganosos. O Barcelona precisou tomar um golpe pesado ano passado para aprender que não existe time imbatível dentro de campo. Se quiser vencer, tem que jogar tudo que sabe o tempo inteiro. A cobrança e a responsabilidade aumentam proporcionalmente ao seu número de sucessos e títulos. Grandes equipes sempre souberam lidar com isso. Esse Barcelona aprendeu.

Pra entrar pra história

Os elogios a esse time do Barcelona são recorrentes desde a época de Ronaldinho Gaúcho. Desde aquele longíquo 2006, quando a equipe catalã provou que queria alçar voos maiores e desafiar seu maior rival também fora do território espanhol.

A técnica, posse de bola, ginga, paciência, estão presentes há muito tempo na forma de jogar do Barça. Iniciada com Rijkaard, aprimorada com Guardiola.

Os mais apressados podem cometer erros ao julgar essa equipe. O primeiro e mais recorrente é classificar Messi como único responsável pelo sucesso e por esse futebol envolvente. Messi é parte. Não é o todo. Contem nos dedos de uma mão as vezes que alguém dá um chutão pra frente. Até mesmo nos tiros de meta a preferência é para um companheiro próximo que possa carregar a bola e trabalhar o jogo. Isso é trabalho de meses, anos de treinamento. O Barcelona joga como um todo. É claro que algumas peças fazem falta, Xavi, Iniesta e Messi são insubstituíveis por qualquer outro. Daniel Alves é insubstituível na direita. A ausência de algum deles prejudicaria o todo, isso é óbvio. Mas não há hoje, nenhum time que se aproxime do Barcelona, seja em qualidade individual, seja em qualidade do conjunto.

O segundo é desvalorizar a contribuição de Messi. Messi é indiscutivelmente o melhor do mundo já há algum tempo. Não me venham com a conversa que Xavi ou Iniesta foram melhores que ele ano passado. Não foram. Xavi e Iniesta são craques, decidem. Mas Messi decide ainda mais. É aquele tipo de jogador que surge poucas vezes na história. E não me citem Ronaldinho Gaúcho. Messi está acima. Bem acima. Ele é capaz de destruir qualquer defesa com um toque ou com um drible. Alguns cometem outro erro, o classificando como armador. Messi é praticamente tudo do meio para a frente. O menino franzino de dribles curtos se tornou um homem franzino de dribles curtos, passes geniais e finalizações fortes e certeiras. Até mesmo a sua simples presença é capaz de desarrumar um sistema defensivo inteiro. Tirem Messi e o conjunto do Barcelona tem que trabalhar 4 vezes mais para compensar sua ausência.

Os dois primeiros erros são extremos. O meio termo é o mais correto para classificar Messi e o Barça. Ele se tornou peça vital da equipe. Mas o Barcelona existiria sem ele e vice versa. Diria que os dois se completam. O tipo de dobradinha que o futebol viu com Pelé e o Santos, Eusébio e o Benfica, Puskas e o Real Madrid, Cruiff e o Ajax e por aí vai.

Algo que só veremos a cada geração. O que leva muitas pessoas a cometer outro erro, o mais comum deles. Supervalorizam a equipe. Sim, justo eu, que estou defendendo o Barcelona aqui o texto inteiro. A babação de ovo nos catalães vem desde a chegada de R.Gaúcho, há bastante tempo. Muitas vezes os feitos e vitórias do time foram supervalorizados. Classificavam a equipe em um patamar que ela ainda não havia chegado. Esse patamar chegou, agora.

Entre os grandes

O Barcelona vem construindo essa equipe há pelo menos 6 anos. Um trabalho paciente, demorado e complicado.

Após aquele primeiro sucesso com a equipe liderada pelo dentuço riograndense, o Barça enfrentou uma pequena decaída. As respostas foram imediatas e o Gaúcho foi mandado para o Milan e o Rijkaard foi mandado pra Turquia. Ambos receberam os devidos agradecimentos. Mas o Barça precisava de alguém com a mente mais aberta para o tipo de futebol que eles estavam se preparando para implantar. Aí chegou a última peça vital do quebra-cabeça: Guardiola.

Os três títulos e o futebol rápido e envolvente da primeira temporada dele no comando foram um cartão de visitas como nunca antes havia sido visto. A vitória sobre o Manchester na final da Champions League de 2009 coroou aquela temporada e deixou bem claro que para vencer o Barça seria necessário uma preparação psicológica grande.

Na temporada passada o Barça confirmou seu domínio na Espanha mas tomou o baque que eu queria que ele tomasse. Aquela derrota nas semi-finais da Liga dos Campeões para a Inter serviram para que todos os jogadores e o próprio Guardiola percebessem que não há time imbatível. Não importa a maneira como a Inter jogou o segundo jogo. Ela provou que há um jeito, feio, de bater esse time. E fez com que eles percebessem que não importa o quanto te bajulam, quando você cai, não há piedade.

Foi com essa mentalidade que o Barça entrou nessa temporada. Tentando se reafirmar. Sim, porque o título espanhol nem foi tão difícil. O Real Madrid e suas extravagâncias não chegaram a ameaçar.

Mas com Mourinho no Real o Barça teria que enfrentar seu algoz. Foi aí que eles decidiram entrar pra história de uma vez por todas.

Aqueles 5×0 foram só o cartão de visitas. Uma paulada, pra provar que dentro de campo o Barcelona tem o melhor time.

Essa vitória em Wembley serviu para coroar a essa equipe como uma das maiores da história. O tri campeonato espanhol, confirmando o domínio em seu território, somado ao 3º título de Liga dos Campeões em 6 anos, são mais que suficientes para fazer esse time catalão ficar marcado entre os grandes.

O que mais me assusta é que, se mantido esse elenco, ou ao menos essa mentalidade, o Barcelona parece longe, bem longe de ser alcançado. A perda da Copa do Rei para o Real esse ano eu classifico como tropeço. No meio daquela maratona de clássicos, esse era o que menos importava. E disse aqui, não duvido que o Barça não tenha dado a mínima importância pra perda desse título, ainda mais agora, no rescaldo da temporada.

Poucas vezes a final da Liga colocou lado a lado os dois melhores do continente. Ano passado, por exemplo, nem Inter nem Bayern eram “os” melhores. Esse ano foi diferente. Barça e Manchester “são os” melhores da Europa. Melhores jogadores, elenco, estrutura, técnicos. O Manchester vem de um período de 20 anos de domínio absoluto na Inglaterra. O Barça está construindo um domínio que já passa de meia década no futebol europeu.

E creio que, para quem viu o jogo, ficou claro o abismo que separa as duas equipes.

One thought on “Crônica de um título anunciado

  1. Pois é , também vi o jogo. E confesso que nunca fui muito fã do Barça. Mas sou muito menos do Real. Entre os 2 espanhois sempre fico com a equipe catalã. Já na Inglaterra sou meio Arsenal. E é um “meio” bem pequeno. Talvez 1/4. Por isso tenho total isenção pra dizer que o Manchester United nem fez o Barça suar. Ganharam sem qualquer questionamento. E nem o gol irregular tirou a calma e frieza do Barça. Não se abalam com nada. Diria que lembram um time alemão nisso. Mas com toda a habilidade e técnica de um time latino. E acho que a supremacia merengue vai durar até o dia em que o extra-campo deixar. A técnica pode ter limites; a inveja, orgulho e rivalidades não têm.
    (vou falar da audiência e transmissão logo que atualizar a minha coluna). ABS!!

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