Estaduais


Vivemos em um país atrasado esportivamente, isso é fato. Temos 200 milhões de habitantes e somos um país do tamanho de um continente, entretanto não conseguimos fazer um papel bonito nas Olimpíadas ou nos destacar em várias modalidades esportivas, como era de se esperar de um país tão grande e populoso. Somos o “país do futebol” aos olhos do mundo.

Mas até o futebol tem lá o seu atraso.

Os Estaduais são o maior exemplo de nosso atraso referente ao futebol. Qual o sentido de colocar clubes grandes para jogar contra clubes tão pequenos, que muitas vezes só existem durante o período de disputa do campeonato estadual?

Na essência os estaduais existiam para que clubes do mesmo estado (ou cidade) pudessem jogar entre si e se manterem como clubes. Numa época em que não havia aviões e o Brasil como nação ainda era um conceito distante para a maioria da população, os estaduais eram o ápice do futebol.

O primeiro torneio a nível “nacional” aconteceu em 1937. A Copa dos Campeões reuniu os campeões dos estados do sudeste, Atlético MG, Fluminense (campeão do Distrito Federal), Portuguesa e Rio Branco, além do Aliança (campeão do fluminense) e de um time da Marinha. A CBD convidou clubes de todo o Brasil, mas devido a dificuldade de deslocamento o convite foi recusado por todos. O Atlético Mineiro se sagrou campeão. Mas o torneio não vingou. Ainda era cedo demais para se pensar em um torneio a nível nacional que fosse viável.

Pulando para 2011, os estaduais continuam existindo. Aqueles clubes que outrora dominaram seus respectivos campeonatos estaduais hoje são os “grandes clubes”. Todo estado tem os seus. E aqueles clubes dos grandes centros hoje se tornaram os grandes clubes do país.

Há um conceito, não muito recente, que temos 12 grandes clubes no Brasil: os 8 grandes de SP e RJ mais os 4 grandes de MG e do RS. Seria injusto não considerar os 2 grandes paranaenses junto com clubes como Bahia, Sport e Santa Cruz. Talvez tenhamos 12 “gigantes” e outros tantos grandes espalhados pelo Brasil.

O que quero expor é o seguinte: qual o real ganho para algum desses grandes clubes em disputar jogos contra equipes infinitamente inferiores?

Qual o ganho para as equipes grandes, que iniciam a disputa destes campeonatos completamente desentrosadas, sem realizar uma pré-temporada adequada? Que ganho o Flamengo tem ao jogar contra o pequenino Nova Iguaçu? Ou o Cruzeiro ao enfrentar a Caldense?

E que ganho as equipes pequenas tem ao enfrentar esses grandes clubes? Alguns podem dizer que a renda do jogo contra o time grande vale a pena, que o clube pequeno ganha projeção na mídia. Será? Raros são os casos de clubes pequenos que triunfam nesses campeonatos e são lembrados.E os jogos contra os grandes são poucos demais para fazerem diferença. Aqui em MG se um time pequeno joga contra um dos grandes em casa, obrigatoriamente jogará contra o outro grande fora de casa. E quando os times pequenos não podem jogar nos seus próprios estádios, como é praticamente regra no Campeonato Carioca?

Ao que os campeonatos estaduais levam:

-12 dias de pré-temporada. Talvez até menos.

-Jogos contra equipes que não disputarão nem a 4ª divisão tupiniquim, que se preparam por meses para enfrentar equipes grandes desentrosadas

-Jogadores desentrosados nas equipes grandes. Sem pré-temporada não há ambientação dos contratados e nem treinamentos suficientes para que os jogadores se conheçam

– Expectativas excessivas: caso um grande comece tropeçando a pressão virá. E aí todos se esquecem que é início de temporada, que não houve tempo para preparação etc, e o que ocorre?

-Planejamentos vão por água abaixo. Bastam 4 rodadas para demitir treinadores. Independentemente de se tratar de time grande ou pequeno.

Daríamos um passo gigantesco à frente se transformássemos os estaduais em uma divisão inferior do nosso futebol. Algo que acontece na Inglaterra, por exemplo. Há uma pirâmide, que vai ficando regional a partir da 5ª divisão até o nível de bairros, lá pela 23ª divisão.

Lá existem vários torneios equivalentes a 8ª, 9ª, 10ª, até a última divisão. Regionais. Uma equipe pequena pode ser criada e dependendo de sua estrutura, pode iniciar automaticamente na 10ª divisão, por exemplo. E assim ela pode subir aos poucos, se estruturando e enfrentando as realidades de uma divisão superior. Ela se prepara para subir de divisão.

No Brasil, não são raros os casos de times nanicos que surgem em Campeonatos Estaduais e ganham fama instantânea. E assim como o BBB, após o fim do maldito programa (ou torneio), voltam a obscuridade.

E também podem ocorrer coisas absurdas. Um exemplo: o Ituiutaba conseguiu o acesso para a Série B do Brasileiro no mesmo ano em que foi rebaixado para a Segunda Divisão do Campeonato Mineiro. Imagine o trabalho que o pessoal do triângulo mineiro está tendo para arrumar um jogador que se comprometa a jogar a Segunda Divisão regional por 4 meses para só depois jogar a Série B. Um jogador de Segundona do Brasileiro não vai receber um salário de Segundona do Mineiro, vai?

Muitos gostam do estaduais pelo charme, pelas tradições, pelos clássicos.

A imprensa vem forçando muito a barra ultimamente, claro. Os estaduais foram comprados por valores altos, num mercado que ficou inflacionado pelo “medo” da Globo em relação a Record. Muitos clubes já adiantaram suas cotas de televisão para o estadual do ano que vem (não é, Cruzeiro?), portanto, tem o rabo preso.

É comum ver jornalistas exaltando os estaduais, especialmente a tradição desses torneios, a história.

Creio que está na hora de dar um passo a frente, e não é na direção do abismo. É um passo a frente para o rumo da organização de nosso futebol. Fazer um Brasileirão que se extenda pelo ano inteiro, uma Copa do Brasil mais cheia de clubes pequenos (exemplo inglês, mais uma vez), que permita aos grandes clubes disputá-la mesmo estando na Libertadores e que permita a esses clubes não ter que escolher qual competição priorizar. Com um Brasileiro se estendendo pelo ano todo, seria possível fazer os jogos da Copa do Brasil em pausas do Brasileirão, em fins de semana.

Mas não sou Ricardo Teixeira e nem sou ninguém na CBF. Tenho apenas idéias. Deveríamos olhar pra fora e copiar o que é bom dos campeonatos europeus. Lá eles não veem sentido nenhum em termos campeonatos estaduais.

Mas estamos no Brasil. País tropical. Quente. Dá uma preguiça…..

4 thoughts on “Estaduais

  1. Concordo com algumas coisas e discordo de outras. Cada um, cada um… Mas é bom pensar que a citada Inglaterra é do tamanho de 1 estado brasileiro, MG por exemplo. O mesmo vale pra Espanha, França… Portugal então… parece o Espirito Santo.
    Estes países não PODEM ter estaduais porque não têm estados. Um Nacional com 1ª, 2ª, 3ª, 4ª… divisão já ocupa todos os times profissionais do país deles. Nós vivemos num “continente”, como você deve saber.
    Claro que o formato e dimensão dos estaduais está muito longe do ideal e atrapalha muito mais que ajuda. Mas talvez tenham jeito. antes de pensar na extinção pura.
    E não custa lembrar que nos clubes pequenos é que surgem os jogadores que, eventualmente, serão ídolos nos grandes. Ex: Ronaldo, do São Cristovão pro Cruzeiro, pra Holanda, pro Barcelona e etc…
    Matando os pequenos clubes iremos prejudicar a formação de novos atletas pois nos grandes a divisão de base é só fachada e eles só abrem espaço pra jogador de empresário.

  2. Concordo com o que dizes mas quando quando você fala “Que ganho o Flamengo tem ao jogar contra o pequenino Nova Iguaçu? Ou o Cruzeiro ao enfrentar a Caldense?” Flamengo e Cruzeiro não precisam ganhar nada pois já ganham o ano todo. Ou melhor, o Flamengo ganhou e muito contra o Nova Iguaçu. Não esqueça a cota de patrocínio que a dona Visa deu ao Flamengo para estampar a sua marca na camisa. Moro na Bahia e sou defensor do estadual por que se transforma em uma fonte de renda para equipes menores do Estado. O caso da Inglaterra é interessante, mas a CBF e as federações regionais não conseguem organizar bons campeonatos imaginem mais divisões inferiores. Já desisti desse discurso de comparar a Inglaterra com o Brasil. Em 2000 quando comecei a acompanhar a BPL queria que tudo aqui fosse igual a terra da Rainha, mas não dá. A realidade é outra e a vontade de se fazer também. Mas seria um bom caminho. E oi caso do Ituiutaba é interessante. Vai ser complicado para o time.

  3. Opa, realmente deixei alguns pontos meio….obscuros….E concordo com vocês em outros.
    E tenho uma birra com os estaduais….relevem.
    Sei que o Brasil é continental, como citei no início. Se não me engano temos o mesmo tamanho que a Europa, excluída a Russia, algo assim….Até por isso veria a regionalização como uma solução viável para pequenas equipes existirem. Clubes pequenos disputariam suas divisões contra adversários de seu nível e próximos geograficamente.
    Levem em conta que pequenos clubes não precisam de jogar contra grandes para existirem. Aqui em MG há vários exemplos de equipes que raramente disputam a primeirona do Mineiro e continuam existindo. Ou que disputaram por anos, caíram, mas continuam existindo e com médias de público muito boas (Mamoré e URT, por exemplo).
    Sobre a comparação com a Inglaterra, na verdade eles tem “estados”. Liverpool por exemplo é em Merseyside. Não sei se o conceito é exatamente o mesmo.
    O que quero chegar é no seguinte: não teríamos os estaduais como existem hoje, teríamos 2 divisões nacionais, mais umas 3 grandes divisões regionais e depois torneios estaduais, regionais dentro dos estados, municipais….enfim.
    E realmente tenho que parar com essa idéia de pensar que poderemos um dia ser tão organizados quanto a Inglaterra….

  4. Concordo em parte com você. Por mais que eu ainda defenda os estaduais, acho que a CBF poderia dar uma “enxugada” na quantidade de clubes. Algo como foi feito com o próprio Brasileirão. Por exemplo, o Carioca e o Gaúcho tem 16 times. Pra que isso tudo?! O Paulista é ainda pior; 20 times! Cada estado tem o estilo de disputa e isso até pode ser mantido, mas obrigar um torneio de 19 rodadas mais semifinal e final, não dá. E isso tudo, ao mesmo tempo da Copa do Brasil e do início da Libertadores. O Carioca separa em dois grupos, que primeiro jogam entre si e depois um grupo contra o outro. Dá tranquilamente para abaixar o número de concorrentes para 10, diminuindo a duração do campeonato, tempo de deslocação e dando mais tempo para isso tudo que você falou. O grande problema de mudar os estaduais na verdade é da CBF. Para ser eleito, o candidato a presidente tem que fazer alianças com as federações estaduais, e as federações estaduais ganham mais dinheiro quando?! Durante os estaduais, claro! O dia que isso mudar no Brasil, é o dia em que o futebol deixa de ser amador, para se tornar profissional, então… a discussão é muito maior do que um simples “Cruzeiro x Caldense” ou “Flamengo x Vasco”.

    Gostei muito do seu blog, quando puder, dá uma olhada no meu!

    Abraços,

    http://levapramaternidade.blogspot.com/

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s